São sete horas da noite, estou voltando pra casa, estou cansada, o trânsito está horrível, minha cabeça está horrível, aliás minha vida está horrível. Não se se você já passou por isso, mas nos últimos tempo tenho sido meio avestruz, tenho enfiado minha cabeça na areia pra não vê o que está diante de mim, a minha volta, na minha cama, em todo lugar.
Meu nome é Tânia, tenho 30 anos, sou a típica balzaquiana, sou decoradora, diria que sou uma mulher de sucesso - ao menos no trabalho - tenho mais pedido de projeto do que sou capaz de fazer. Tenho 1:64m de altura, 60 kg, corpo bonito, malhada, branca, cabelos longos de um castanho quase mel, rosto bonito, lésbica assumidissíma, mas não pense que você vai me olhar e vê escrito em mim que sou lésbica, ao contrário você não irá acreditar quando te dizer que sou lésbica, porque adoro ser mulher, amo ser feminina, adoro me olhar no espelho e vê uma mulher.
Sou casada, meu casamento já dura 5 anos. Se você me perguntasse a 6 meses atrás se era feliz te diria sem sombra de dúvida que era a mulher mais feliz do mundo, mas hoje não saberia te dizer onde a minha felicidade foi parar.
Minha mulher é advogada, toda gostosa, assim daquelas que sabem que tem pegada, que sabem que são boas. Ela é morena da cor de canela como diria Jorge Amado, 35 anos, cabelo e olhos tão preto, tão lindo. Minha advogada é mais alta, um pouco mais forte que eu, uma linda mulher aos meus olhos.
Nos conhecemos quando precisei de uma advogada para resolver a burocracia para abri um escritório, com o objetivo de deixar a minha firma apta a participar de licitações. Quando entrei no escritório dela senti a força daquela mulher no instante que a vi. A partir daí foram horas às telefone, jantares, olhares, toques, muita sedução, até que um dia nos beijamos, fizemos amor, tudo ao mesmo tempo, agora.
Quando respirei e olhei pra mim estava morando no apartamento dela. E se você que está lendo por acaso não conhecer o universo das lésbicas, saiba que somos assim, tudo muito rápido, tudo muito intenso.
Acho que todas pensamos isso, mas nosso relacionamento era perfeito, tudo tão carinhoso, a gente viajava e se amava, trabalhava e amava, brigava e se amava. É triste dizer tudo isso no passado.
Levanto e vou até a sacada que me dá uma vista linda da cidade, suspiro, porque sei que em algum lugar daquela imensidão a mulher que amo deve está olhando para outros olhos que não são os meus. Fecho tudo, desligo tudo, hora de ir pra casa. Casa, que casa?
Quer saber? Não vou pra casa, vou sentar, tomar um drink, comer alguma coisa. Ir para a casa pra quê? Sei que ela só chegará de madrugada com uma desculpa qualquer. Não, hoje vou rever nossa história.
Desço pego o carro, com o coração oxigenando, infiltrando tristeza em cada célula do meu corpo, são quase oito horas da noite o engarrafamento me faz demorar a chegar a lugar nenhum.
Saio daquele engarrafamento horrível, estaciono em frente a um barzinho com cara bonitinha, mas o que me fez ficar foi o fato de ter música - voz e violão - sento, peço uma bebida, pego meu celular, fico vendo nossas fotos, são tantas. Fomos tão felizes, penso com tristeza.
Não sei onde nós nos separamos. Éramos tão ligadas, tão juntas, parecia que ela conseguia ler os desejos do meu coração e eu os delas. Sorríamos tantos, tínhamos tantos planos, em todas as ocasiões parecíamos tão únicas, mesmo estando separadas.
O amor entre nós era tão presente que sei todos conseguiam vê que existia alguma coisa especial, mesmo que não soubesse o que era. O amor entre nós fazia seu sorriso clarear o mundo, seu toque sempre me transportava para um mundo de amor nosso.
Agora estamos assim, sem vida, tenho quase certeza que existe outra. Ela chega quase todos os dias muito tarde, sempre usando a desculpa de trabalho, o celular dela agora tinha senha. Agora ela não me procurava mais na cama, e se a procurava ela estava sempre muito cansada. Agora não existia o dormi de conchinha. Agora era solidão a dois. Agora tudo parecia perdido
Outro dia quando fui ao banheiro pela manhã e comecei a recolher a bagunça dela, me deu uma saudade do tempo em que recolheria não só a roupa dela mas a nossa que deixamos espalhada ali, então com aquela blusa nas mãos quase que sem perceber abraço a blusa, cheiro, pra minha tristeza o perfume que estava lá não era o meu, muito menos o dela, só senti as lágrimas vindo, sem controle.
Já tivemos tantas conversas, tantas promessas não cumpridas. Agora ela está cheia de clientes em outras cidades, agora ela tem sempre que recorrer dos seus casos em Brasília, ela pensa que não vejo que essas viagens sempre acontecem, quarta a noite, quinta de manhã, sempre ficando para o final de semana.
Dói tanto vê-la indo, mais dói muito mais vê-la mentindo, destruindo nossos amor, se bem que hoje sei que esse amor é agora só meu.
Cansei de mentiras, de olhares de pena, olhares de não sei como sair disso. Cheguei a conclusão é que ela permanece comigo por comodismo, talvez medo de me magoar - e agindo assim ela só me mágoa - acho que hoje sou sua amiga querida.
A paixão acabou, o desejo acabou, ela não mais me vê como mulher. É tão dolorido senti aquele abraço no meio da noite que diz: "vamos dormir, porque não tenho mais tesão por você". É dolorido senti esse carinho substituindo uma paixão que me destruía, me reconstruia com a mesma intensidade.
Hoje, hoje somos duas amigas que fingem serem companheiras, mulher uma da outra. Ela não se interessa pela minha vida, não quer me contar da sua. Acho que hoje sou só aquela dor constante no seu coração, um problema que ela não sabe como resolver.
Hoje, vejo-a encontrando um mundo novo onde não estou. Dia após dia ela está cada vez mais distante, cada vez mais sua vida não está onde estou. Meu coração dói porque ele sabe que ela já foi embora, só não levou as malas ainda, mas já não está aqui faz tempo.
Ela não sabe, nem desconfia, mas montei um novo apartamento só meu, só falta ter coragem de sair daquele local que já foi meu oásis de felicidade, talvez o álcool me dê coragem de segui em frente.
O garçom passa, por favor traz mais um. Olho em volta, são tantas mulheres, aliás eu vejo mulheres o tempo todo. Essencialmente trabalho para mulheres, mas não consigo olhar para nenhuma mulher com interesse. Olho para o relógio 11 horas da noite, acho que vou para casa. Não! Ali não é minha sua casa, acho que dá tempo pegar algumas coisas, ir para o meu canto, até porque é sexta e ela vai ficar na casa da outra.
Quer saber? Eu tenho a chave daquele escritório, já que vai ser nossos fim, que seja com verdade. Pago a conta, o garçom solícito pergunta se estou bem, se quero um táxi. Sorrindo respondo: minha vida já está tão fundida que neste instante é mais duro permanecer viva.
Entro no carro, entro no prédio onde ela tem um escritório, os seguranças, o porteiro todos todos me conheciam, entrei segui, abri a porta, tudo escuro. Saí dali com o peso do mundo sobre mim.
Vamos saber onde ela está? Minha moça sempre deixava o GPS por uma questão de segurança, foi só segui, ele me leva ao prédio que a mariana morava, entrei, conversei com o porteiro, descobri que a Dra. Mariana estava com uma amiga que sempre estava por lá, que estavam só as duas, inventei uma desculpa, saí e fui viver a minha vida.
Sei que vai doer, mas hoje eu vou embora pra sempre, hoje vou começar a vomitar amor. Quem sabe amanhã, depois de amanhã, depois é depois de amanhã, ou um dia eu não esteja me alimentando de amor acompanhada de outro anjo de asa quebrada
Sei que quase todas nós já fomos traída, já sentimos essa dor. Em momento assim só nos resta pedir pra dor passar logo, para o desamor magoar menos.
Fernanda Tahann